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Economizar água requer programas consistentes e duradouros

Economizar água requer programas consistentes e duradouros
Neste mês de março último, quando se comemorou o Dia Internacional da Água -no dia 22 -, aconteceu em São Paulo um seminário que abordou o tema racionalização do consumo de água com a troca de bacias sanitárias. No evento, que aconteceu no auditório do Sindicato dos Engenheiros, o especialista norte-americano William Hoffman apresentou os resultados de programas adotados em Austin, no Texas, e em Nova York, entre outras cidades dos Estados Unidos.
Nessas cidades, segundo Hoffman, desde o início dos anos 1990 aconteceram programas que visavam incentivar a redução e a racionalização do consumo de água potável. Esses programas alcançaram importantes percentuais: entre 40% a 60% de economia.
O seminário foi significativo também devido à presença de diversas autoridades representantes do governo estadual paulista e da concessionária de água e esgoto, a Sabesp, especialmente pelo que revelaram não do que fizeram, mas do porquê deixam de realizar programas semelhantes aos dos norte-americanos. O engenheiro Paulo Massato, diretor de Operações da Sabesp, disse, em momento de louvável franqueza, que a empresa “não avança mais em programas de incentivo à redução do consumo de água porque o negócio da Sabesp, em síntese, é a venda da água”.
Os programas norte-americanos, em síntese, eram de concepção global, com implantação por etapas. Na primeira delas, em geral eram criados programas de adesão voluntária de redução do consumo. Na seqüência, eram oferecidos por lei estímulos pecuniários aos cidadãos para trocar, por exemplo, bacias sanitárias desperdiçadoras por outras, mais econômicas. Finalmente, a legislação impunha a adesão ao programa, com multas para quem não aderisse.
Aqui, ao contrário, além de campanhas esporádicas e iniciativas isoladas emprédios públicos, nada foi feito de mais consistente na busca da racionalização do consumo de água, que poderia evitar enormes gastos com a busca de água a grande distância da capital paulista – estima-se em até 300 km a distância mínima para buscar novos reservatórios de água para são Paulo, com custos proibitivos.
Um programa que vise o uso racional da água é certamente mais duradouro do que campanhas publicitárias ou programas eventuais, que “vão embora com a primeira chuva de verão”. Isto porque, ao se estimular a troca de bacias sanitárias antigas, na maioria muito desperdiçadoras – consomem entre 12 litros e 18 litros por acionamento – pelas economizadoras, que gastam 6 litros por acionamento, ao lado de troca de torneiras comuns por outras equipadas com arejadores de vazão constante e os limitadores de vazão em chuveiros, no caso de residências, os resultados são melhores e permanentes.
Nova York conseguiu, entre 1994 e 1996, instalar mais de um milhão de bacias sanitárias economizadoras, utilizando um programa que atingiu praticamente todas as camadas da população. Pelo programa, a prefeitura de Nova York reembolsava as despesas dos moradores e empresários locais com a troca de bacias. Participaram donos ou locadores de imóveis residenciais, edifícios comerciais e hotéis. A cidade compensou as despesas da troca de bacias com US$ 240 para a primeira bacia trocada e US$ 150 para a segunda. O sucesso da iniciativa foi tamanho que foram poupados 60 milhões de galões por dia, ou o equivalente a 216 milhões de litros de água. De acordo com as planilhas apresentadas pelo engenheiro Hoffman, o investimento se paga rapidamente, em torno de quatro meses.
É importante lembrar que apenas a troca de bacias e torneiras pode não resolver o problema. O ideal é que essa troca seja feita por especialistas, para evitar que, por falta de regulagem adequada, as pessoas acabem gastando até mais água do que antes, por “acharem” que a quantidade de água liberada por bacias e torneiras não é suficiente para a higienização.
Mas temos no Brasil atualmente tecnologia desenvolvida para essa regulagem, a indústria de produtos cerâmicos e de metais sanitários já desenvolveu linhas e tecnologias economizadoras. Portanto, o que falta para que sejam implantados programas semelhantes aos dos norte-americanos em regiões que vivem situações críticas, como a da Região Metropolitana de São Paulo? Falta a firme intenção do governo estadual na implementação de programas desse tipo, que supere eventuais interesses comerciais de concessionárias. Este seria um enorme estímulo ao uso racional da água, com significativa economia de recursos públicos e privados e a preservação de um bem natural que será cada vez mais escasso, e caro, neste século 21, caso nada seja feito.
Carlos Lemos da Costa, engenheiro, que foi diretor executivo da deca durante 20 anos, e atua há 7 anos em programas de uso racional da água. 

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